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domingo, 4 de dezembro de 2011

Não dou a mínima



Sonhos estranhos preenchem minha noite, então quando eu acordo para viver o dia eu entendo que o convite a insanidade é apenas um meio de se viver bem e em contato com a Fonte. Nós estamos desejando muito, estamos desejando muitas coisas e às vezes estamos tão apegados em nossas crenças que sequer nos damos conta de que é apenas um amontoado de pensamentos inúteis e desgastantes.

Definitivamente eu não quero ter razão, eu não quero estar certa, eu não quero ter certeza de que tudo o que está em minha mente, ou a minha filosofia ou as minhas crenças são em última instância a verdade absoluta do universo. A verdade é apenas uma inverdade. Estar ou não estar, ser ou não ser, isso não importa, definitivamente não importa. Você acha que eu estou muito preocupada? Você realmente acha que eu estou muito preocupada?

Gosto quando calamos a boca e olhamos nos olhos. Gosto quando não faz a menor diferença se eu sou redonda e você é quadrado. Eu gosto de andar pelas ruas e olhar os carros, sentir o vento batendo em meu rosto. Eu estou realmente esgotada de pensar tanto, de temer tanto, de esperar tanto, de me preocupar tanto. Isso significa que hoje eu acordei para apertar o botão do “foda-se”, eu não dou a mínima. E eu não escrevo isso porque eu quero compartilhar, eu escrevo isso porque eu quero que alguém saiba de mim, porque eu sou humano e às vezes, só às vezes eu preciso de um pouco de atenção.

Eu só estou querendo aprender a gostar do desconhecido ao invés de viver morrendo de medo dele. Eu só estou querendo mostrar para o mundo que eu estou detestando a minha mania de esperar a perfeição, ou me tornar a pessoa ideal. Eu não sou ideal, eu não sou perfeita e nem estou ligando mais para isso. O que você pensa sobre mim é simplesmente um problema seu. E é assim que eu estou querendo viver, é assim que eu estou procurando agir e isso é sim um aprendizado.

Se me aceito, não preciso que os outros me aceitem. Se me amo, não preciso que os outros me amem. Se me sinto bem comigo mesma, não preciso que alguém me faça bem. Se escuto as minhas musicas favoritas, não significa que eu não gosto de você por gostar de coisas diferentes. E nada disso significa que eu não me importo com aqueles que eu gosto, eu me importo, eu admiro pessoas, eu as trato com carinho. Mas a fonte, a fonte disso tudo, tem que estar fluindo dentro de mim, do contrário serei apenas mais um mendigo implorando por uma migalha de afeição.

A fonte, toda aquela corrente de água viva que dá vida a tudo no mundo está bem aqui dentro de mim. E é isso que importa. Eu não sou adequada? E daí? Estou para conhecer quem realmente o é. Não sou engessada e não estou interessada. Definitivamente não estou interessada. Pego novamente minha mala de liberdades mal resolvidas e dou um lindo grito: eu não dou a mínima!




Água Viva

Raul Seixas

Eu conheço bem a fonte
Que desce aquele monte
Ainda que seja de noite
Nessa fonte está escondida
O segredo dessa vida
Ainda que seja de noite
"Êta" fonte mais estranha,
que desce pela montanha
Ainda que seja de noite.
Sei que não podia ser mais bela
Que os céus e a terra, bebem dela
Ainda que seja de noite
Sei que são caudalosas as correntes
Que regam os céus, infernos
Regam gentes
Ainda que seja de noite
Aqui se está chamando as criaturas
Que desta água se fartam mesmo
às escuras
Ainda que seja de noite
Ainda que seja de noite...
Eu conheço bem a fonte
Que desce daquele monte
Ainda que seja de noite
Porque ainda é de noite!
No dia claro dessa noite!
Porque ainda é de noite

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Enchendo Línguiça



A vida simplesmente é uma loucura. Que outra coisa ela poderia ser? Até pouco tempo atrás eu não teria a menor idéia de que minha vida estaria da maneira como ela está agora e tampouco que eu tinha que lidar com muitas necessidades das quais tenho que lidar agora. Castañeda fala sobre isso em um de seus livros quando diz: “Há muita coisa que você faz agora que lhe teria parecido loucura há 10 anos. Essas coisas em si não mudaram, mas sua concepção de si mesmo mudou; o que antes era impossível é hoje inteiramente possível, e talvez que o seu sucesso total em se modificar seja apenas uma questão de tempo. Nesse assunto, o único caminho aberto a um guerreiro é agir persistentemente e sem reservas. Você já sabe o suficiente sobre o procedimento do guerreiro para agir de acordo, mas seus velhos hábitos e rotinas o atrapalham.”

Hoje eu tive que evocar o elemento espírito para dar um jeito no fuzuê que os outros quatro elementos estavam fazendo dentro de mim, o desequilíbrio interno pelo qual eu estava passando. Então, isso também me fez refletir um pouco a respeito da auto-análise. Tenho me acostumado a ouvir que o auto-conhecimento é muito importante, o que eu concordo de fato, porém o que me fez pensar muito sobre isso foi minha própria instabilidade durante os dois últimos dias quando eu realmente decidi que eu tinha que me retirar do social para efetuar uma perfeita evocação do espírito dentro de mim. Então, hoje em que eu tive uma prática muito mais forte e de verdadeira entrega com um ótimo resultado, fiquei realmente questionando se a necessidade de se falar tanto ou de se analisar tanto a si mesmo em termos racionais, é realmente a forma mais eficaz de se encontrar um equilíbrio interior.

Tive um sonho daqueles hoje de manhã, cheio de símbolos e eu nem quis interpretá-lo, não porque ele não seja importante, talvez sua mensagem estivesse clara demais para mim, mas esmiuçar tanto e deduzir, veja bem, DEDUZIR, que possa ser isso ou aquilo, ou uma mensagem complexa de algo, pode causar mais confusão do que trazer a lucidez necessária em certos casos. Isso me fez questionar se essa tendência a um auto-conhecimento totalmente voltado a uma descrição racional de um estado “x”, ou de um eu y, não é apenas uma obsessão egocêntrica.

Estou questionando na verdade até onde há um real interesse de desenvolver o interior e se auto-conhecer, para a linha tênue de um egocentrismo desvairado onde sentimos um profundo prazer em observar narcisisticamente o quanto somos especiais por sermos doidos. Até onde vai realmente um desejo sincero de cura para então se transformar numa neurose. Penso hoje, e amanhã eu posso sim mudar de opinião, que os porquês são extremamente sensuais e por sua sensualidade eles poderiam parar por aí. Às vezes pode ser delicioso ser simplesmente uma incógnita.

Estou há dez anos fazendo terapia e é impressionante como eu ainda tenho que fazer muito por mim mesmo para parar de me interessar em pessoas destrutivas, só de pensar na quantidade de coisas que eu tenho que fazer para mudar, fico desanimado” – li numa mensagem de um grupo de auto-ajuda que faço parte. É pra se pensar, não? Dez anos se esmiuçando todo na terapia e nada?

A verdade é que para se conviver em sociedade é imprescindível cuidarmos dessa parte “ego” de nossa natureza, que é segundo alguns espiritualistas apenas uma ilusão. Jung é um cara legal que foi mais além, que disse uma coisa bacana que era que sem uma real experiência mística não haveria cura. Então você pega um Víctor Sánchez dizendo que sem dar uma atenção ao Nagual, sem trabalhar com ele é impossível que tenhamos uma real transformação no nosso modo de ser. Acho que estamos começando a chegar lá!

A primeira vez que você se levanta dentro de um sonho lúcido e olha ao redor dizendo para si mesmo: “Eu estou sonhando”, você simplesmente tem a sensação de que não sabe de coisa alguma sobre si mesmo”.

Só pra cultivar a dúvida.

Somos um ser dual segundo alguns e uma legião segundo outros. E ainda podemos dizer que não somos coisa alguma.

Minha mente não sou eu, minha mente está em mim.

Reconhecer – Aceitar – Investigar – Não se Identificar.


Hohoho  Papai Noel chegou! :P

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Asatru Não É Wicca



Asatru não é Wicca

Por serem ambos os caminhos pagãos, muitas pessoas que desconhecem ambos podem achar que se trata de uma mesma coisa, ou de duas coisas semelhantes com nomes diferentes. A verdade é que Wicca é uma coisa, Asatru outra.

A começar pelos nomes de cada vertente já podemos ter uma pequena idéia de se tratar de coisas diferentes. Diz-se que a palavra Wicca está ligada a palavra saxônica Witch, que significa dobrar, girar ou moldar, a segunda palavra raiz a qual pode estar ligada, é a palavra germânica Wit que significa saber ou sabedoria.  Asatrú por outro lado não quer significar outra coisa senão Asa = Aesir (inclui também os Vanir – deuses da mitologia germânica-nórdica) e Tru = fé, assim sendo Asatrú significa fé nos Aesir.


Os símbolos das duas vertentes também demonstram como são diferentes uma da outra. A Wicca normalmente usa o pentagrama como seu símbolo, o pentagrama pode significar muitas coisas, mas dentro da Wicca é possível observar que ele está representando o equilíbrio entre os elementos, cada ponta representando a harmonia desses cinco elementos, sendo eles: ar, água, terra, fogo e espírito. A Wicca defende que devemos conviver harmoniosamente com esses elementos, com os ciclos de vida-morte-renascimento.



O símbolo do Asatrú é o Martelo. Não é necessária muita explicação para se compreender o Martelo, pois este símbolo foi retirado do Mito e representa o Mjollnyr, o Martelo de Thor, com o qual o deus Thor mata vários gigantes e defende Asgard, a terra dos deuses. Ao invés de ser um glifo que simboliza uma declaração metafísica complicada, como o pentagrama, o martelo é um símbolo simples retirado de um mito específico. Porém, nós podemos retirar alguma explicação da religião por meio dele. Se observarmos que o símbolo é a imagem de uma arma de guerra torna bastante significativo, pois tanto a teologia quanto a mitologia Asatrú não se baseia na harmonia entre várias divindades ou do homem com o universo, como expressa o pentagrama, mas numa relação de conflito.  

Outra grande diferença marcante é que a Wicca é panteísta, do grego pan = tudo e Theo = deus, ou “tudo é deus”. Podemos também dizer que a Wicca é duoteísta, pois se baseia inteiramente na imagem da mãe lua e pai-filho sol, por isso é tão comum aos Wiccanos acreditar que todos os deuses são faces de uma mesma deusa. Os Asatruar são politeístas, do grego poly = muitos e theoi = deuses. Nesse quesito Asatruar e Wiccanos podem até concordar que o universo ou pelo menos a terra tem uma natureza divina, mas para os politeístas há uma multiplicidade de separadas e distintas divindades que estão envolvidos numa complexa teia de relações. O politeísmo argumenta que, como entidades distintas, os Deuses representam características únicas e individuais, que podem ou não parecerem (ao menos para nós) estar em harmonia uns com os outros. Isso deixa claro que para os politeístas Odin é Odin, Thor é Thor, Frigga é Frigga e não faces de um único deus ou deusa.

Outra grande diferença está também que a Wicca, embora defenda que vem de linhagens de bruxas hereditárias, trata-se de um esforço (e que deve ser reconhecido) do folclorista e funcionário público inglês Gerald Brosseau Gardner. É conhecido que grande parte do trabalho de Gardner foi retirado de vários trabalhos de teóricos como a antropóloga Margaret Murray, o ocultista Aleister Crowley, o folclorista James Frazer e o poeta Robert Graves. A estrutura ritual da Wicca também foi influenciada pelas as sociedades ocultistas como a Golden Dawn, a OTO - Ordo Templi Orientis e a Co-Maçonaria.

O Asatru se trata de um movimento conhecido como Reconstrucionismo, que basicamente quer dizer que é uma reconstrução da antiga religião pagã anterior ao cristianismo. Isso se deve ao esforço de muitos grupos isolados em estudar e pesquisar a história, a arqueologia e os mitos, criando uma estrutura ritual, artigos, métodos e terminologia onde Mito e História são combinados.

Outra grande diferença está na ritualística de um e de outro. Por incrível que pareça, a Wicca (ao menos a de Gardner) tem uma base metafísica muito forte e é conhecida como uma religião de mistérios, que sugere uma base nas práticas de êxtase dos antigos povos europeus. Como regra geral, vários covens (grupos Wiccanos) se envolvem com os “mistérios”, tipicamente significando o entendimento esotérico de vários eventos mitológicos ou rituais. Alguns sugerem que os alicerces da prática da Wicca Gardneriana tinha fortemente suas prioridades no mágico-ritual, ao invés de qualquer forma particular de adoração. Assim, podemos dizer que a Wicca sempre priorizou suas práticas de magia e feitiços, antes da veneração religiosa. Isso é ainda sugerido pela quantidade de tempo que é reservado para a abertura de um circulo mágico “formal”, por exemplo.

O Asatru, no entanto, é principalmente uma religião “votiva”. Enquanto os mistérios e a magia são também encontrados no Asatru, elas são geralmente reservadas para as atividades separadas e distintas do trabalho principal religioso. É facilmente encontrado em Kindred (grupos de Asatruar) no Asatru os trabalhos mágicos com Runas e Seidhr, mas são geralmente um trabalho além de um ritual de adoração (Blót) e não como parte essencial de um.  Os rituais primários do Asatru são simples. Eles podem se juntar para um trabalho mágico, ou para um Súmbel (basicamente “beber cerveja”) ou para estudar o Hávamál, isso é um traço comum e simples: o de que eles tomam parte em blóts – que se dedicam a uma expressão votiva bem como para um trabalho de “mistério”. Uma pessoa não é Asatruar porque faz trabalhos mágicos com Runas ou de Seidhr, uma pessoa é um Asatruar porque venera e faz oferendas aos Aesir e Vanir.

Como disse Devyn Gillette: “Pode-se então dizer que a Wicca é uma religião que evoluiu a partir de um grupo mágico, enquanto o Asatru é uma religião da qual evoluíram grupos mágicos. Você poderá encontrar Asatruar de muitos anos de experiência que nunca experimentou magia, mas é quase impossível pensar em um Wiccan em tal situação”.

Heilsa Aesir ouk Vanir!
Hail Kindred Höfðingjar Norður!

PS: Isso tem várias fontes, peça que eu dou, estou com preguiça de fazer bibliografia!
Mais sobre Asatru, Odinismo e Troth nos blogs: Templo de Vanadis e Wodangang (ambos escritos por mim)

E musiquinha Viking pra finalizar! ^^




quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Descomplicação

Na foto Harry Potter brasileiro!


Eu acho que nunca estive tão impaciente pela primavera como eu estou esse ano. Primeiro porque convenhamos foi um inverno traumático, segundo porque “caralho, precisa fazer tanto frio assim?” e terceiro hoje é um dia daqueles que você tem certeza que é um dia completamente inútil, em dias muito, muito inúteis é maravilhoso sair caminhando por aí, até encontrar um bar, sentar numa mesa e beber cerveja enquanto joga conversa fora ou simplesmente fica olhando os carros passarem. Mas quem é que vai passar em qualquer lugar com um frio de Niphelheim desse?

Aí quando não resta muita coisa, em dias inúteis a gente tenta ficar repetindo frases para ter certeza de que afirmações positivas não funcionam. Pega aquela pessoa aleatoriamente e começa analisar seu comportamento só pra se decepcionar com ela. Você fica cheio daquelas idéias grandiosas que você nem vai se lembrar amanhã, gasta milhares de horas lendo livros inúteis só para depois entender o que é que as pessoas estão falando numa roda de conversa.

E os gregos diziam: “Nada em excesso”.

Nós temos sede de inutilidade e é engraçado porque se analisarmos bem tudo o que fazemos em geral é uma senhora inutilidade. O bom de dias inúteis como esse é que eu percebo que às vezes eu só tenho que tornar as coisas simples. Mas eu não faço isso sempre, é complicado descomplicar, porque às vezes a “descomplicação” não depende unicamente de mim. Mas, no que me diz respeito tudo já ficou muito simples:

- Confesso que eu não segui conselhos que eu devia, mas quem sabe na próxima.

- Não vou falar com pessoas que me ignoram, ainda que eu esteja louca para falar com elas.

- Não gastarei meu tempo ficando mal por causa das duas coisas acima.

- O sofrimento dos outros me dói, mas posso conviver com isso.

- Gentileza ainda é uma virtude!

- Amigo que é amigo está sempre por perto de um jeito ou de outro.

- Eu amo quem eu quiser e ponto.

- Idiotices são indispensáveis para um viver feliz!

- Por mais difícil e incompreensível que isso seja às vezes cometemos erros que são irreparáveis.

- Não gastarei meu tempo ficando mal por isso também.

- Minha melhor amiga é uma boneca de pano chamada Vasalisa!






Só pra entrar no clima gelado de hoje! huahuahua

domingo, 28 de agosto de 2011

Beleza



Às vezes eu percebo que beleza não é algo superficial, como um rosto bonito e um sorriso perfeito, beleza é algo que floresce do interior! Tenho visto tantas pessoas “lindas” por fora e podres por dentro. E vejo tantas pessoas lindas por dentro que acabam se tornando lindas de qualquer forma! Aparência não quer dizer muita coisa.

A beleza é algo que me chamou hoje, porque algumas coisas não tão agradáveis também me chamaram a atenção hoje. Fiquei pensando se seria mesmo necessário tentar vestir milhares de máscaras e sair me apresentando por aí como uma pessoa longe de ser o que eu sou, aquele “eu ideal”.

Acho uma maluquice pensar em ser um “eu ideal”, de fato eu não sou uma pessoa agradável para muitas pessoas, a julgar pelos poucos amigos que eu tenho, não devo de fato ser uma pessoa agradável. Às vezes, quando eu estou bem doida, eu gostaria de ser a pessoa ideal para alguém, mas isso significa ter de mentir pra mim mesma e acho um preço muito alto a se pagar.

Não sou também nenhum exímio de amor próprio, se assim o fosse já teria abandonado coisas, pessoas e amores há muito tempo. Mas eu estou tentando, a cada dia eu tento um pouco mais e se alguém quiser gostar de mim, vai ter que gostar de mim imperfeita do modo como eu sou, com minhas esquisitices, minhas fragilidades, meus defeitos e excentricidades. Porque isso também faz parte do pacote.

Não se trata de arrogância da minha parte, acho que quando as pessoas têm de gostar da gente, elas simplesmente gostam, pela afinidade, por qualquer coisa, não preciso ser uma pessoa que eu não sou simplesmente para que gostem de mim. Não que a rejeição não seja dolorida pra mim, às vezes a vida gosta de pregar peças e me fazer gostar de pessoas que não gostam de mim. Mas o outro nunca é culpado por isso, a rejeição sempre será um sentimento meu, que sou eu quem sente e eu que tenho que me resolver com ele.

Já vivi alguns bons anos nessa vida e aprendi que me vender em troca da aceitação dos outros é um preço muito alto, porque no final das contas, é comigo mesma que eu tenho que conviver 24 horas por dia em 365 dias por ano. Ou seja, se há realmente alguém nesse mundo que eu tenho que estar bem esse alguém é eu mesma. E a vida sempre dá um jeito para não nos sentimos completamente sozinhos nesse caminho, quando parece que está difícil demais surgem pessoas, situações, momentos que nos inspiram, que nos acalentam, que nos dão um pouco mais de força para continuarmos.

E a vida é em si mesma uma prece à beleza, não a essa idéia insana de beleza que vemos por aí, de corpo perfeito, escultural e bons modos. Beleza não é uma coisa. Beleza é uma inspiração, é uma energia, uma conexão. O nascer do sol é lindo não porque ele é uma coisa, mas porque ele nos inspira beleza.

Então, se há algo que eu sempre digo a mim mesma é: Não se venda! Às vezes é realmente difícil, às vezes é realmente doloroso, às vezes dá vontade de chacoalhar o outro e berrar: “Me aceita assim mesmo”, mas não temos o controle sobre os outros, não existe uma fórmula, não há como se obrigar a gostarem da gente. Podemos vestir milhares de máscaras, mas isso soa tão superficial que todos percebem. Infelizmente eu não sou uma peça que qualquer um pode moldar para me ter sob medida. Eu até gostaria que assim fosse, pois quem sabe isso resolveria a questão da rejeição. Mas não é bem assim que a banda toca. Até porque não estou aqui para servir, mas pra compartilhar. Assim sendo você não gostar de mim é um direito seu, da mesma forma que lidar com a rejeição é um problema meu e vice-versa.

Beleza é, assim simples.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Essencialmente bons e maus

Na Ilustração a deusa nórdica Hella, deusa do submundo conhecido dentro da mitologia como Helheim, para onde vão os mortos. A deusa em si tem um lado belo e um lado sombrio.

"A arte do guerreiro é equilibrar o terror de ser um homem com a maravilha de ser um homem." - Carlos Castañeda

Estava eu aqui novamente tentando pensar a respeito do inverno, a respeito dos atos, sobre se somos essencialmente bons, ou essencialmente maus, se certos sentimentos são permissíveis a alguns e não a outros, estava me colocando a pensar na variedade do ser, dos “nós”. Estava pensando nas ações e nos eventos que delas resultam. Estive observando as pessoas, li num blog um autor que estava falando que certos psicanalistas vêem pênis por toda a parte nos símbolos oníricos e nos comentários do mesmo artigo, tinha um profissional da área defendendo o ponto de vista do Freud e o outro psicanalista citado no artigo do rapaz, dizendo que naquele tempo era o que eles tinham, dizendo que o grande problema não era basicamente ver pênis por toda a parte nos símbolos oníricos, que o problema era a escória da sociedade que adorava Raul Seixas e vivia transgredindo leis ou tentando viver como ele viveu. Tentando agredir o autor do blog pelas suas preferências e claro, porque discordava do ponto de vista dele.

Então eu penso: “Não é o que pensamos que nos torna qualquer coisa, não é o que pensamos que faz com que tomamos um lado ou outro, não é o que pensamos que faz com que defendemos uma coisa e atacamos outra, são as nossas convicções que nos impulsionam a fazer isso”. Será que algum deles estava com medo de estar errado ou de admitir que o outro poderia estar certo? Vejamos...

Eu converso com uma amiga, que está com um sério problema, não falarei do problema dela em específico porque isso não diz respeito a ninguém, mas podemos dizer que ela está basicamente de cara com a morte. Então, me contou que sonhou que estava recolhendo ossos na noite anterior. Eu pensei, seja como for, ela está tentando resgatar aquela força interior que há tanto tempo residiu na escuridão do inconsciente dela, tentando pegar os restos, aquilo que restou de si mesma para trazer à vida. Então, há algo que ela diz que me chama atenção: “No final eu estou bem, estou como se me sentisse numa capsula, eu sei que tudo o que está acontecendo são conseqüências das coisas que eu fiz e eu tenho que lidar com isso de qualquer jeito. Sem lamentações para o momento. Sinto-me estranha de todo modo, em outro momento isso me deixaria desesperada, mas agora eu só tenho em mente que isso é resultado de tudo o que eu fiz e tenho que resolver”.

No Odinismo nós damos o nome a essa onda de eventos de Wyrd. Wyrd não se trata de destino, mas das conseqüências de nossos atos, ele diz absolutamente que é exatamente aquilo que estamos fazendo hoje que determinará como será o nosso amanhã. E pensar nisso é angustiante de toda maneira, imagine ter de estarmos completamente atentos com cada palavra falada, com cada ato, com cada sentimento, com cada pensamento. Wyrd é basicamente como muito bem descreveu Saramago no Ensaio Sobre a Cegueira:

A culpa foi minha. chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as conseqüências dele a pensar nelas a sério. primeiro as imediatas. depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.”

De todo modo é sempre impossível prever. Nunca sabemos que interpretação o outro pode dar a qualquer ato nosso, pois nunca conseguimos ser impessoais. Toda a leitura que nós fazemos do mundo é profundamente pessoal, individual e intransferível. E aqui cabe porque eu quis falar primeiramente da convicção dos dois terapeutas anteriores. A convicção tem um quê de resistente. Existem certas crenças pessoais que não abrimos mão, mesmo quando estamos certos de que elas não estão nos fazendo bem, quando ela só está nos levando viver à vida do modo mais difícil. Embora haja de se pensar qual deveria ser o modo fácil. De todo o modo, vejo pessoas defendendo morais, defendendo conceitos a preço de sua própria felicidade, de seu próprio bem estar.

Estava a pensar que estamos tão programados a evitar as coisas ruins, que nem nos damos conta que muitas vezes o simples ato de evitar dá inicio as coisas ruins. Somos criados de tal maneira que estamos todos com medo, estamos todos com medo do que queremos ou desejamos, estamos envergonhados do que somos, do que pensamos, do que desejamos, estamos constantemente vivendo num estado de tensão louco. E estamos constantemente tão rígidos, com tanto medo de sermos descobertos, com medo se seremos rejeitados, humilhados, vitimizados, hostilizados, que estamos constantemente lutando para evitar qualquer tipo de contato com aquilo que uma autora muito sabiamente nomeou de “não-belo”. Estamos numa corrida louca atrás do prazer, do bom, do correto, do belo e tudo o que parece sair do que é “bom”, nos deixa completamente aterrorizados e desesperados. Então, lutamos, lutamos para defender nosso ponto, para defender as nossas convicções, para manter a persona, para não perdemos um bocado de comida, ou de prazer, ou de qualquer coisa que nos mantenha acomodados em nosso mundinho convencional e confortável, por mais infeliz que possamos estar com isso.

Porém tudo tem o seu tempo. Quando estamos vivendo o inverno interior, percebemos que às vezes parece ser uma época totalmente irritante, tudo está recuado, é a morte que está a dançar por todos os lugares, é o frio que nos mantêm presos em casa tentando nos manter aquecidos, é a lentidão das horas, a escuridão dos dias e das noites, a feiúra, o desprazer, a necessidade de ter que lutar ou fazer muito esforço para sobreviver. No inverno é quando nós vemos a Morte batendo em nossa porta e nos lembrando que na natureza tudo é cíclico, que é necessário morrer para nascer, que isso faz parte do ciclo vida-morte-vida. Assim como é a natureza, cíclica, assim nós também somos. Nossa racionalidade e genialidade nos fez acreditar que estamos apartados da natureza, que somos um bando de alienígenas que em forma de espírito tomamos um corpo e estamos aqui apenas de passagem. Mas, não é assim, nossa psique, nossa alma, seja lá que nome você gosta de dar a isso, não está apartada da natureza. Não importa o quão cheio de nós mesmos nós estamos, não importa o quanto estamos numa corrida maluca atrás do que é agradável e só do que é agradável, o inverno sempre irá se apoderar de nós quando for o momento e a Morte virá bater em nossa porta com sua cara feia e dizer “Oi”.

É necessário fins para os novos começos, é necessário encarar o feio para se encontrar o bonito, é necessário passar pela noite para vermos o nascer do sol. Preocupa-me essa loucura generalizada no qual todos nós estamos submetidos. Essa busca desenfreada pelo que é bom e agradável, essa loucura de que temos de aceitar o bem e negar o mal. Essas ações estão simplesmente mutilando nossa humanidade. Nossa totalidade é uma dança de bem e mal, masculino e feminino, luz e trevas, feio e bonito. E é dolorido olhar para o mundo e perceber que essa fixação pelo que é agradável e só pelo que é agradável é que norteia nossos comportamentos. Quando estamos cheios dessa fixação, achamos que temos o direito de ferir uma pessoa que errou com a gente, porque só nós somos o correto, em nossa loucura, achamos que temos o direito de julgar as outras pessoas que não se adéquam a sociedade e a moralidade implantada só porque estamos convictos que assim que tem que ser. Não conseguimos perceber que enquanto estamos tão obcecados pelo que é agradável, nossos olhos só conseguem focar no que é desagradável, justamente porque estamos morrendo de medo de ter que encarar o desagradável batendo a porta ou a Morte. Estamos apavorados e queremos ter o controle de tudo, mas não podemos ter esse tipo de controle.

Não há uma receita, embora milhares de livros estejam aí pra te dar alguma pista. O inverno chega para todos, a morte vem para todos, os fins também vem para todos. Mas isso não é ruim, apenas cíclico. Nós reagimos bem e aceitamos estação invernal quando ela chega pra nós, sabemos que não podemos fazer nada contra o clima, contra a baixa temperatura, nós nos recuamos, fechamos nossas casas, procuramos as bebidas quentes, tentamos nos manter aquecidos o máximo que pudermos, nos agasalhamos, queremos dormir até mais tarde, preferimos ficar dentro de casa. Ninguém tem vergonha porque está com frio. Ninguém também deveria ter vergonha porque está vivendo um inverno da alma, porque todos nós o vivemos. Todos nós encaramos fins e recomeços, dores e alívios, tristezas e alegrias, erramos e acertamos, é inerente ao ser humano. Isso é nosso e é nosso direito conviver com isso. Quando passamos a aceitar o próprio mal, o próprio “não-belo” que temos dentro de nós, conseguimos aceitar isso nos outros também. Não iremos querer matar o outro só porque errou ou fez algo que julgamos errado, só desejamos matar o outro por um erro cometido, quando também desejamos matar a nós mesmos por cometermos os mesmos erros. Mas quando nossa convicção não é mais a de se estar certo ou de se evitar o “não-belo”, quando aceitamos isso dentro de nós mesmos, então conseguimos aceitar isso nos outros, as pessoas deixam de ser tão irritantes, porque nós não estamos mais tão irritados com nós mesmos. E a isso alguns dão o nome de transcendência, mas não passa de um movimento de auto-aceitação.

Os outros são exatamente aquilo que nós projetamos. Ninguém é impessoal. E o universo como nós o vemos é apenas uma visão pessoal que temos dele, e, ela é mutável, desde que estejamos dispostos a aceitar o bem e o mal dentro de nós mesmos, de nos acolhermos verdadeiramente nos nossos invernos pessoais e procurarmos nos aquecer, ao invés de tentarmos evitar isso a qualquer preço, só porque nosso inverno interior poderá nos mostrar que não somos belos, ou bons ou tão perfeitos quanto gostaríamos. Quando abandonamos nosso desejo insano de perfeição, então podemos viver em paz na nossa completude. Quando o inverno acaba, sempre se segue a primavera com as suas novidades e seu pulsar de vida. Os altos e baixos, os feios e belos, são inerente a nossa natureza. Somos essencialmente bons e maus. A luta do bem contra o mal é o foco da moralidade. Talvez seja um grande passo conseguirmos parar de lutar. O cão não ladra por valentia e sim por medo – provérbio chinês.

Ainda Saramago: “O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.”

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Péssimo, mas inspirador

Hoje foi um daqueles dias bem difíceis, um dia em que a entropia pareceu querer mostrar-se diante dos olhos. Isso foi como se o universo tivesse rindo da minha cara e dizendo: “Bem, esse é definitivamente o seu momento, é de sua responsabilidade escolher como lidar com ele”.

Acordei com meu corpo todo dolorido, a sensação que eu tinha era como se eu tivesse apanhado de um boxeador a noite inteira, além de notar que a tosse seca denotava que eu estava sem ar. Fui jogando as cobertas para cima, enquanto tentava inutilmente me levantar rapidamente numa busca insana por ar para respirar. Após alguns espirros, eu mesma me diagnostiquei, estava gripada. Liguei para o trabalho avisando que não estaria presente, tendo que ouvir uma voz mal humorada da minha supervisora do outro lado da linha. O alarme soou. Eu deveria ir mesmo assim? Eu estava podre, com dores até na alma (literalmente) e sequer conseguia respirar. Não vou trabalhar, concluí.

Sentei-me na cadeira do computador como de costume, o mau humor matinal ainda mais acentuado que o normal. Agora penso que me levantar e preocupar-me com o meu trabalho, me fez desviar a atenção do mal estar que eu estava sentindo. Havia um mal estar emocional também, na verdade vários motivos que me causavam certo mal estar mental e emocional. Corpo, emoção, mente e espírito estavam em uníssono e tudo se resumia num mal estar generalizado. Tento dirigir o dia da melhor maneira que me cabe, me disponho a cumprir e dar algumas metas, brinco em outros momentos, medito e penso. Entre um momento ou outro, choro, a dor deve ser sempre sentida, aceita e não rejeitada. E tudo doía.

Vou ao médico ao fim da tarde em prol de um atestado. Exames pra cá, dores pra lá e um diagnóstico não muito agradável, os dois pulmões quase completamente infeccionados. As dores corporais são então suplantadas pela dor da agulha e do líquido grosso que invade meu corpo, benzetacil (penicilina) não é a mais agradável injeção para se tomar, tampouco a mistura de mais quatro remédios diferentes injetados na veia do braço, seguido por uma inalação e um médico muito preocupado com o meu delicado estado de saúde e uma receita para um tratamento prolongado. Enfim, fiquei triste por isso, como se já não bastasse todos os motivos para manter a tristeza bem alimentada. Voltando para a casa, um tanto drogada, tremendo feito vara verde pela reação medicamentosa e quase alucinando com a lua no céu, faço o favor de perder meu RG. Claro, como costume fiz piada da situação de um modo geral. Tornei-me uma pessoa altamente Zen:

Zen paciência com o trabalho
Zen RG
Zen pulmões
Zen agilidade nas pernas pela musculatura altamente machucada pela injeção
Zen namorado
Zen dinheiro
Zen dignidade

Luto incessantemente, milhares de questões, milhares de emoções, milhares de pensamentos... Uma meditação... Tara Branca... E tristeza por não ter sequer fôlego para fazer o que eu mais gosto em momentos como esses, que é cantar para extravasar. No grupo terapêutico que participo vem à tona a idéia do Numen* para efetuar a cura da neurose ou manter o equilíbrio psíquico. O tema é também Self, nada mais apropriado.
 
Muito resumidamente, na teoria de C. G. Jung, ele propõe uma correspondência entre a imagem divina e o homem, dando-se através dos arquétipos. Basicamente, o que ele afirma é que independente da existência ou não do ser divino, sua imagem existe tanto interior quanto exteriormente. Vale salientar que Jung se refere somente à imagem sempre, nunca à própria divindade, ele caracteriza-se pelo empirismo e não pela metafísica. O que ele quer dizer é que a imagem da divindade existe e são vivenciadas pelo indivíduo psiquicamente, porém nenhum juízo é dado – nem seria possível cientificamente – a respeito da existência da divindade em si. As imagens de Self e da imagem divina não se diferenciam.

“É o arquétipo central da ordem, da totalidade do homem” (Jung, 1975). “É uma realidade ‘sobre-ordenada’ ao eu consciente. Abrange a psique consciente e a inconsciente, constituindo por esse fato uma personalidade mais ampla, que também somos”. “É o centro e também a circunferência completa que compreende ao mesmo tempo o consciente e o inconsciente: é o centro dessa totalidade, como o eu é o centro da consciência” (Jung, 1975).

Acho que Aleister Crowley, Newcomb e até o Abramelin, entre vários outros caras esquisitos, não negariam tal afirmação, por mais “metafísico” que isso poderia parecer.

Enfim, toda essa questão de Self foi levantada para recordarmos de outra coisa que Jung também defendia bastante, que se tratava de que a aproximação ao numinoso ou, se preferir, as experiências espirituais podem nos libertar das patologias, neuroses e outros perrengues psicológicos que enfrentamos no dia-a-dia. Isso me animou bastante, fazia tempo que eu não me sentia tão motivada para uma discussão nesse nível. Procurando por bases para suster minhas argumentações, ou apenas minha exposição de idéias. Com a mente silenciada pela concentração e focada num tema tão tentador pra mim. Surge entre milhares de outras idéias, uma vontade de falar sobre o que Chopra (sei que é New Age, mas idéias sempre podem resultar em inspiração) chama de Potencialidade Pura e eu encontro um meio que julgo adequado para viver esse momento.

"Não devemos ficar aprisionados na certeza do conhecido. O conhecido é uma prisão, é no desconhecido que encontramos o campo no qual devemos entrar"... Existem três princípios que devemos praticar a fim de deixar funcionar a lei do "menor esforço". O primeiro é aceitar o princípio da aceitação. Aceitação significa que posso criar o futuro, revisar o passado, mas esse momento é o que eu devo aceitar tal como é. Porque todo o universo, todo o universo conspirou para criar esse momento. E, portanto esse momento é precioso. Também significa que se as coisas não saem como eu quero nesse momento, eu simplesmente abro mão, deixo de lado minhas idéias do que deveriam ser as coisas, porque o universo está pensando em outra coisa. Eu renuncio, me entrego a esse momento e dessa forma eu aceito as situações, as pessoas e as circunstâncias tais como são e não como eu gostaria que fossem. Mas, claro que posso criar o futuro de todas as maneiras. O segundo princípio é o da responsabilidade, da responsabilidade sem culpa, sem vergonha. A palavra responsabilidade na verdade significa a capacidade para responder. Em cada momento da vida há certas coisas que as pessoas rotulam como problemas, quando na verdade são importantes desafios para acreditar, para evoluir, para obter benefícios. (...) O terceiro princípio diz sobre renunciar a necessidade de defender um ponto de vista. Falta de defesa. Não significa que eu não tenha um ponto de vista, na verdade eu sou um ponto de vista. Mas quando eu perco a necessidade de defender meu ponto de vista, então me torno invencível. O segredo da invencibilidade é a falta da necessidade de defesa. Há um sutra que diz: "quando não estamos firmemente aferrados a defesa, todos os seres que nos rodeiam deixam de sentir hostilidade, porque não há nada a atacar".

Tudo isso me fez ir de encontro ao meu péssimo dia, que culminou numa busca de lidar melhor com a situação, dando num debate sobre Self, que terminou numa experiência espiritual diretamente minha, que revelou que independente de todas as situações, independente de tudo o que vem acontecendo, do que eu tenho feito, do que os outros têm feito, do que a própria aleatoriedade do universo vem fazendo, corresponde a uma abertura para o desconhecido, para a criatividade, para uma nova forma de ver a vida, as pessoas e as situações. Um desafio de viver de outra forma, agir de outra forma, comportar-se de outra forma. Eu estava muito preocupada, estava realmente muito preocupada com o que eu fiz, com o que eu deixei de fazer. Em campos afetivos estava terrivelmente obstinada a distribuir as culpas, rever o que aconteceu, o que deixou de acontecer, o que poderia ser evitado, o que poderia ter sido feito, dito, revisado, norteado, governado, para chegar a alguma conclusão de como eu deveria proceder de agora em diante para obter um resultado, qualquer resultado, desde que me mantivesse em paz com o conflito interno. Eu estava muito preocupada, muito preocupada com uma parada respiratória, com todo o mal estar, com uma infecção homérica, com os meus comportamentos auto-destrutivos, com a tendência a pensar que nada pode ser muito grave, de  que essas coisas só acontecem com os vizinhos, identificada com o médico assustado e preocupado, pensando com bastante afinco em idéias que embasam o suicídio, o suicídio consciente e também o inconsciente. Saturno engolindo seus filhos. Senti-me muito sozinha e muito triste. Porém uma voz interior gritou: “Esses sentimentos são problema seu, Dona Baby, resolva-os”. E novamente lembrei-me de duas coisas importantes:

"O curso do destino de um guerreiro é inalterável — dissera-me uma vez. — O desafio é o quão longe ele pode ir dentro desses limites rígidos, o quão impecável ele pode ser dentro desses limites rígidos. Se há obstáculos no seu caminho, o guerreiro luta impecavelmente para ultrapassá-los. Se acha dificuldades e dores insuportáveis no seu caminho ele chora, mas todas as suas lágrimas juntas não movem a linha do destino nem um milímetro.” - Carlos Castañeda  

Quando você estiver decepcionado ou aborrecido com uma pessoa ou com uma situação, lembre-se de que não está reagindo à pessoa ou à situação. Esses sentimentos são seus e o que você está sentindo não é culpa de mais ninguém. – Deepak Chopra

Só você é o problema, do mesmo modo só você é a solução. Claro que não é apenas entregar-se a situação, vejo aceitação como uma forma de observar que é isso o que eu tenho agora, então o próximo passo é ver o que eu posso fazer com o que eu tenho e não ficar eternamente chorando e lamentando o que eu perdi, ou os pulmões debilitados, o que eu poderia ter feito diferente, na soma de todas essas coisas, as conscientes, as inconscientes, as pessoas, o ambiente, o caos que governa todo o universo, esse é o resultado, isso o que eu tenho agora. É necessário muitas vezes rever o que foi feito, analisar como foi que chegamos nesse resultado, qual a minha parte no processo, como me comportei durante todo esse tempo, o que eu preciso mudar e encorajar-me para moldar o futuro de acordo com a vontade. Interessa-me mais agora obter um silêncio interior maior, para não me ocupar da mente pensante, para assim poder responder as novas situações, ao que eu tenho que fazer agora, ao que quero alcançar daqui a alguns passos.  

Ninguém tem uma vida livre de sofrimento e mágoa. Não é uma questão de aprender a viver com isso, em vez de tentar evitar? – Eckhart Tolle

Finalizando com o meu queridão Timothy Leary:

“A grande ironia é que o nosso conceito de realidade é tão frágil que pode se desfazer em apenas alguns dias, caso não tenhamos constantes mensagens que nos reafirme quem somos e que a nossa realidade continua existindo.”

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Numen - O numen é caracterizado como um mysterium tremendum et fascinans - onde o mysterium representaria o das ganze Andere (o totalmente outro), o qualitativamente diferente, que apresenta dois conteúdos: o tremendum, elemento repulsivo, que causa medo ou terror, e o fascinans, o que atrai, fascina.


Religião é – como diz o vocábulo latino religere – uma acurada e conscienciosa observação daquilo que Rudolf Otto acuradamente chamou de “numinoso”, isto é, uma existência ou um efeito dinâmico não causados por um ato arbitrário. Pelo contrário, o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua vítima do que seu criador. Qualquer que seja a sua causa, o numinoso constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade (Jung, 1938/1990, p. 9).
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