quinta-feira, 14 de julho de 2011

Péssimo, mas inspirador

Hoje foi um daqueles dias bem difíceis, um dia em que a entropia pareceu querer mostrar-se diante dos olhos. Isso foi como se o universo tivesse rindo da minha cara e dizendo: “Bem, esse é definitivamente o seu momento, é de sua responsabilidade escolher como lidar com ele”.

Acordei com meu corpo todo dolorido, a sensação que eu tinha era como se eu tivesse apanhado de um boxeador a noite inteira, além de notar que a tosse seca denotava que eu estava sem ar. Fui jogando as cobertas para cima, enquanto tentava inutilmente me levantar rapidamente numa busca insana por ar para respirar. Após alguns espirros, eu mesma me diagnostiquei, estava gripada. Liguei para o trabalho avisando que não estaria presente, tendo que ouvir uma voz mal humorada da minha supervisora do outro lado da linha. O alarme soou. Eu deveria ir mesmo assim? Eu estava podre, com dores até na alma (literalmente) e sequer conseguia respirar. Não vou trabalhar, concluí.

Sentei-me na cadeira do computador como de costume, o mau humor matinal ainda mais acentuado que o normal. Agora penso que me levantar e preocupar-me com o meu trabalho, me fez desviar a atenção do mal estar que eu estava sentindo. Havia um mal estar emocional também, na verdade vários motivos que me causavam certo mal estar mental e emocional. Corpo, emoção, mente e espírito estavam em uníssono e tudo se resumia num mal estar generalizado. Tento dirigir o dia da melhor maneira que me cabe, me disponho a cumprir e dar algumas metas, brinco em outros momentos, medito e penso. Entre um momento ou outro, choro, a dor deve ser sempre sentida, aceita e não rejeitada. E tudo doía.

Vou ao médico ao fim da tarde em prol de um atestado. Exames pra cá, dores pra lá e um diagnóstico não muito agradável, os dois pulmões quase completamente infeccionados. As dores corporais são então suplantadas pela dor da agulha e do líquido grosso que invade meu corpo, benzetacil (penicilina) não é a mais agradável injeção para se tomar, tampouco a mistura de mais quatro remédios diferentes injetados na veia do braço, seguido por uma inalação e um médico muito preocupado com o meu delicado estado de saúde e uma receita para um tratamento prolongado. Enfim, fiquei triste por isso, como se já não bastasse todos os motivos para manter a tristeza bem alimentada. Voltando para a casa, um tanto drogada, tremendo feito vara verde pela reação medicamentosa e quase alucinando com a lua no céu, faço o favor de perder meu RG. Claro, como costume fiz piada da situação de um modo geral. Tornei-me uma pessoa altamente Zen:

Zen paciência com o trabalho
Zen RG
Zen pulmões
Zen agilidade nas pernas pela musculatura altamente machucada pela injeção
Zen namorado
Zen dinheiro
Zen dignidade

Luto incessantemente, milhares de questões, milhares de emoções, milhares de pensamentos... Uma meditação... Tara Branca... E tristeza por não ter sequer fôlego para fazer o que eu mais gosto em momentos como esses, que é cantar para extravasar. No grupo terapêutico que participo vem à tona a idéia do Numen* para efetuar a cura da neurose ou manter o equilíbrio psíquico. O tema é também Self, nada mais apropriado.
 
Muito resumidamente, na teoria de C. G. Jung, ele propõe uma correspondência entre a imagem divina e o homem, dando-se através dos arquétipos. Basicamente, o que ele afirma é que independente da existência ou não do ser divino, sua imagem existe tanto interior quanto exteriormente. Vale salientar que Jung se refere somente à imagem sempre, nunca à própria divindade, ele caracteriza-se pelo empirismo e não pela metafísica. O que ele quer dizer é que a imagem da divindade existe e são vivenciadas pelo indivíduo psiquicamente, porém nenhum juízo é dado – nem seria possível cientificamente – a respeito da existência da divindade em si. As imagens de Self e da imagem divina não se diferenciam.

“É o arquétipo central da ordem, da totalidade do homem” (Jung, 1975). “É uma realidade ‘sobre-ordenada’ ao eu consciente. Abrange a psique consciente e a inconsciente, constituindo por esse fato uma personalidade mais ampla, que também somos”. “É o centro e também a circunferência completa que compreende ao mesmo tempo o consciente e o inconsciente: é o centro dessa totalidade, como o eu é o centro da consciência” (Jung, 1975).

Acho que Aleister Crowley, Newcomb e até o Abramelin, entre vários outros caras esquisitos, não negariam tal afirmação, por mais “metafísico” que isso poderia parecer.

Enfim, toda essa questão de Self foi levantada para recordarmos de outra coisa que Jung também defendia bastante, que se tratava de que a aproximação ao numinoso ou, se preferir, as experiências espirituais podem nos libertar das patologias, neuroses e outros perrengues psicológicos que enfrentamos no dia-a-dia. Isso me animou bastante, fazia tempo que eu não me sentia tão motivada para uma discussão nesse nível. Procurando por bases para suster minhas argumentações, ou apenas minha exposição de idéias. Com a mente silenciada pela concentração e focada num tema tão tentador pra mim. Surge entre milhares de outras idéias, uma vontade de falar sobre o que Chopra (sei que é New Age, mas idéias sempre podem resultar em inspiração) chama de Potencialidade Pura e eu encontro um meio que julgo adequado para viver esse momento.

"Não devemos ficar aprisionados na certeza do conhecido. O conhecido é uma prisão, é no desconhecido que encontramos o campo no qual devemos entrar"... Existem três princípios que devemos praticar a fim de deixar funcionar a lei do "menor esforço". O primeiro é aceitar o princípio da aceitação. Aceitação significa que posso criar o futuro, revisar o passado, mas esse momento é o que eu devo aceitar tal como é. Porque todo o universo, todo o universo conspirou para criar esse momento. E, portanto esse momento é precioso. Também significa que se as coisas não saem como eu quero nesse momento, eu simplesmente abro mão, deixo de lado minhas idéias do que deveriam ser as coisas, porque o universo está pensando em outra coisa. Eu renuncio, me entrego a esse momento e dessa forma eu aceito as situações, as pessoas e as circunstâncias tais como são e não como eu gostaria que fossem. Mas, claro que posso criar o futuro de todas as maneiras. O segundo princípio é o da responsabilidade, da responsabilidade sem culpa, sem vergonha. A palavra responsabilidade na verdade significa a capacidade para responder. Em cada momento da vida há certas coisas que as pessoas rotulam como problemas, quando na verdade são importantes desafios para acreditar, para evoluir, para obter benefícios. (...) O terceiro princípio diz sobre renunciar a necessidade de defender um ponto de vista. Falta de defesa. Não significa que eu não tenha um ponto de vista, na verdade eu sou um ponto de vista. Mas quando eu perco a necessidade de defender meu ponto de vista, então me torno invencível. O segredo da invencibilidade é a falta da necessidade de defesa. Há um sutra que diz: "quando não estamos firmemente aferrados a defesa, todos os seres que nos rodeiam deixam de sentir hostilidade, porque não há nada a atacar".

Tudo isso me fez ir de encontro ao meu péssimo dia, que culminou numa busca de lidar melhor com a situação, dando num debate sobre Self, que terminou numa experiência espiritual diretamente minha, que revelou que independente de todas as situações, independente de tudo o que vem acontecendo, do que eu tenho feito, do que os outros têm feito, do que a própria aleatoriedade do universo vem fazendo, corresponde a uma abertura para o desconhecido, para a criatividade, para uma nova forma de ver a vida, as pessoas e as situações. Um desafio de viver de outra forma, agir de outra forma, comportar-se de outra forma. Eu estava muito preocupada, estava realmente muito preocupada com o que eu fiz, com o que eu deixei de fazer. Em campos afetivos estava terrivelmente obstinada a distribuir as culpas, rever o que aconteceu, o que deixou de acontecer, o que poderia ser evitado, o que poderia ter sido feito, dito, revisado, norteado, governado, para chegar a alguma conclusão de como eu deveria proceder de agora em diante para obter um resultado, qualquer resultado, desde que me mantivesse em paz com o conflito interno. Eu estava muito preocupada, muito preocupada com uma parada respiratória, com todo o mal estar, com uma infecção homérica, com os meus comportamentos auto-destrutivos, com a tendência a pensar que nada pode ser muito grave, de  que essas coisas só acontecem com os vizinhos, identificada com o médico assustado e preocupado, pensando com bastante afinco em idéias que embasam o suicídio, o suicídio consciente e também o inconsciente. Saturno engolindo seus filhos. Senti-me muito sozinha e muito triste. Porém uma voz interior gritou: “Esses sentimentos são problema seu, Dona Baby, resolva-os”. E novamente lembrei-me de duas coisas importantes:

"O curso do destino de um guerreiro é inalterável — dissera-me uma vez. — O desafio é o quão longe ele pode ir dentro desses limites rígidos, o quão impecável ele pode ser dentro desses limites rígidos. Se há obstáculos no seu caminho, o guerreiro luta impecavelmente para ultrapassá-los. Se acha dificuldades e dores insuportáveis no seu caminho ele chora, mas todas as suas lágrimas juntas não movem a linha do destino nem um milímetro.” - Carlos Castañeda  

Quando você estiver decepcionado ou aborrecido com uma pessoa ou com uma situação, lembre-se de que não está reagindo à pessoa ou à situação. Esses sentimentos são seus e o que você está sentindo não é culpa de mais ninguém. – Deepak Chopra

Só você é o problema, do mesmo modo só você é a solução. Claro que não é apenas entregar-se a situação, vejo aceitação como uma forma de observar que é isso o que eu tenho agora, então o próximo passo é ver o que eu posso fazer com o que eu tenho e não ficar eternamente chorando e lamentando o que eu perdi, ou os pulmões debilitados, o que eu poderia ter feito diferente, na soma de todas essas coisas, as conscientes, as inconscientes, as pessoas, o ambiente, o caos que governa todo o universo, esse é o resultado, isso o que eu tenho agora. É necessário muitas vezes rever o que foi feito, analisar como foi que chegamos nesse resultado, qual a minha parte no processo, como me comportei durante todo esse tempo, o que eu preciso mudar e encorajar-me para moldar o futuro de acordo com a vontade. Interessa-me mais agora obter um silêncio interior maior, para não me ocupar da mente pensante, para assim poder responder as novas situações, ao que eu tenho que fazer agora, ao que quero alcançar daqui a alguns passos.  

Ninguém tem uma vida livre de sofrimento e mágoa. Não é uma questão de aprender a viver com isso, em vez de tentar evitar? – Eckhart Tolle

Finalizando com o meu queridão Timothy Leary:

“A grande ironia é que o nosso conceito de realidade é tão frágil que pode se desfazer em apenas alguns dias, caso não tenhamos constantes mensagens que nos reafirme quem somos e que a nossa realidade continua existindo.”

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Numen - O numen é caracterizado como um mysterium tremendum et fascinans - onde o mysterium representaria o das ganze Andere (o totalmente outro), o qualitativamente diferente, que apresenta dois conteúdos: o tremendum, elemento repulsivo, que causa medo ou terror, e o fascinans, o que atrai, fascina.


Religião é – como diz o vocábulo latino religere – uma acurada e conscienciosa observação daquilo que Rudolf Otto acuradamente chamou de “numinoso”, isto é, uma existência ou um efeito dinâmico não causados por um ato arbitrário. Pelo contrário, o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua vítima do que seu criador. Qualquer que seja a sua causa, o numinoso constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade (Jung, 1938/1990, p. 9).

terça-feira, 21 de junho de 2011

Das Flores




O chão é feito de nuvens e meus pés afundam na sutileza de um grito silencioso
A noite canta uma canção, daquelas que ninguém entende, mas tudo sente
Do silêncio da aurora, ao luar frenético dos estrondos pavorosos de dias faustosos
Eis que surge no vento um homem amontoando num saco várias gotas de sortilégios.
Eu me lembro do dia em que a arvore imitou o corpo de uma mulher
E duendes saltavam em bares para roubar algumas canecas de cerveja,
Eu me lembro da canção que eu ouvia que dentro da melodia repetia
Que sempre há um amor que nasce para um amor que morreu.
No vento eu ouço a canção de homens que se cegam por causa da sua moral,
E a moralidade nada é senão um grande baú de belas mentiras,
Nem muito meu, nem muito seu, mas tornei desse o dia,
Onde de tanta alegria, a vida enfartou e morreu.
Porém, ouça-me quando o canto parece ser mais belo que o conto,
Como uma triste opera a contar belas histórias de pessoas que sofreram,
Porque sempre há uma excitante e malograda beleza no pranto que se chora,
E há sempre um lindo poema para relembrar de coisas como prosas.
Veja bela semente que foi jogada no jardim do silêncio,
Que dorme sob a terra, alimenta-se de água e anseia pelo vento,
Porque de dores e tormentos e mentiras e hipocrisia o coração pode estar cheio,
Mas em teus olhos a doçura de tuas palavras parecia apenas um belo nevoeiro.
Dorme, pequeno sujo, de doces olhos e de palavras outorgadas, de sonhos, de prata, de nada,
Dos belos sorrisos, dos melhores afagos, dos olhos, da boca e dos lábios
Doce como um ataif árabe, que meleca toda a boca e faz escorrer nos lábios a perdição,
O açúcar, o prazer e um mínimo de satisfação, para não dizer, benção, canção e maldição.
De egoísmo em egoísmo tornou-se então uma pessoa, faça-se pessoa,
Microcosmo florescente de sonhos inacabados e de sentidos ausentes,
Eis que eu profiro, ainda tímida, uma pequena falácia, fruto de distração,
Mas acredite, a flor sempre há de morrer por falta de atenção. 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Eu minha

Os dias às vezes têm a ironia de se tornarem vazios, eu rebuscaria palavras se eu tivesse paciência para isso. Não se trata, obstante, de adequado e inadequado, muitas vezes o que se sente é apenas uma distorção daquilo que se crê. As crenças dançam entre os escombros de uma história escrita de uma forma bastante inusitada. Inusitado soa sempre como algo bastante positivo, mas às vezes o inusitado pode ter o pior dos tons, como um cinza escuro, um pessimismo.

Os olhos percorrem tantas histórias que às vezes não consegue distinguir o que é o outro e o que sou eu. Um borrão enlameando o vácuo do universo, descrevendo linhas nunca antes vistas, como a matéria escura que sustenta tudo. O que seria? O que seria? Senão um tipo de choro contido pela falta de perspectiva. Já escrevi algumas histórias no decorrer da minha vida e foram poucas que obtiveram um final feliz.

Meus dedos percorrem essas linhas imaginárias que desenham formas abstratas, mas que falam entorpecendo toda a minha alma. Eu poderia percorrer todos esses sentidos e meu perfeccionismo para apenas impressionar você e me desenhar tal qual uma atriz a encenar mais um personagem. Mas creio, sobretudo, que isso é bobagem, pois é só mais uma forma de mostrar que dentro do canto escuro onde a noite deita o seu lamento, eu apenas estou com medo.

Não, não sou dentre as mulheres a mais bela, feito Afrodite a dançar em espumas suaves, tampouco sou entre os mortais a detentora da mais magnânima sabedoria, feito Atena nascida da cabeça de Zeus. Sou, portanto não mais uma, porque dentre todas as pessoas posso conceber-me como um ser único e perfeito em sua imperfeição. Mais uma em face de manifestar a beleza do universo em toda a sua diversidade. Mas dito isso, sou e sempre serei aquela a sonhar, muitas vezes com pranto no olhar, a desmistificar a minha própria existência, sendo ainda eu mesma um grande mito.

Apenas hoje eu me nego o direito de entristecer ou enciumar, eu me nego ter de priorizar coisas que não são minhas, seres que não sou eu. Altamente atenta de minha unicidade, originalidade e expressão. Deito uma prece, como sempre deitei, mas não me ajoelharei, nem implorarei, tampouco deixarei que isso me contamine. Não perderei meu sono e não mais odiarei, seja o que for. Essa é a concepção, minha nova filosofia de vida, ser eu tão minha quanto jamais qualquer outra pessoa poderia.

domingo, 12 de junho de 2011

Entregue me aos rios

Escrito em 04/12/2010


Uma manhã cinza, o mundo parece estar um tanto complicado hoje, as verdades me soam como mentiras, as mentiras como verdades, e, eu acho que estou bastante confusa. Mas, nós podemos escolher o que queremos ser hoje e eu acho que às vezes eu só queria poder ter um pouco do passado de volta. Isso soa melancólico, eu sei. Mas, quando as sombras dançam na parede do meu quarto eu juro que talvez eu não encontre mais ninguém no mundo como ele.

Tão longe, tão perto... Eu continuo lendo esse livro em voz alta, eu observo a aranha que morreu no corredor, eu acendo mais um cigarro, espio o dia pela janela e nesse rio que atravesso, quem sabe o próprio Aqueronte, eu não sei exatamente para onde estou indo, sendo, talvez, qualquer uma de minhas escolhas um caminho para o Érebo.  Isso não me deixa triste, não, é o passado, a outra margem que deixei que às vezes sopra uma brisa de melancolia.

E enquanto eu caminho por essas ruas sujas dentro dessa manhã cinza e quente, as pessoas seguindo para viver o dia, lembro-me nos cantos mais inusitados de alguns momentos e nesse pequeno instante eu escondo de mim qualquer tipo de sentimento que esteja em desacordo com a nuvem que escorre tempestuosa para o sul da minha alma. Por favor, me deixe sozinha agora, eu só preciso jogar poker.

Você está arrependido? Está arrependido? Nós cortamos as arvores, transformamo-las em lenhas, ateamos fogo e nem precisávamos disso. Foi pura diversão, você teria me dito. Eu nem ligo, eu nem ligo. Sabe o que eu encontrei aqui? Alguns pedaços de sorrisos velhos que caíram junto com a chuva que devastou a cidade, Caronte sorri, talvez eu mesma estivesse também sorrindo nesse barquinho.

Pegue sua corda, amarre-a bem no teto e depois a aperte ainda melhor em seu pescoço. Sem carta de despedida, sem moeda sob a língua, não nos encontraremos no Érebo. Mas, se quiser, eu posso escorregar nesse abismo e te entregar uma rosa, ainda que morra, porque a morte é só mais um começo. Porém, eu não entendo, estou moribunda há tanto tempo e nunca morro. Minha corda era fraca demais...

Leio novamente o livro em voz alta, todos os dias eu perco grande parte do meu precioso tempo lendo esse livro cheio de mentiras. Eu acho que só preciso de um banho, uma cama e algumas horas de sono, mas isso não exclui o fato de eu estar perpetuamente cansada disso tudo. Isso não exclui o fato de excluir o excluso, eu inclusive.

Onze da manhã, o dever me chama, o lado b da vida me espera, talvez um poço de morte, ou uma fonte dos desejos, talvez um céu enegrecido ou uma terra esbranquiçada. I don’t mind! Temo não haver mais ninguém no mundo como ele. Temo não haver mais mundo como aquele. Temo estar tomando a decisão errada. Temo, mas não faço nada, porque às vezes pode se sentir um prazer divino em temer. Jogue o que restar de mim no Estige, mas minha mente, minha mente, essa é para o Lete.

E eu me deito, eu me jogo, eu minto, eu te amo, eu te detesto, eu falo a verdade, eu jogo baralho com Loki, eu escorrego no tobogã do horrível para me afogar no Nilo... E em meu ultimo lamento, em meu ultimo lamento, eu imploro a Dionísio, ainda que implorar não seja uma arte que eu faça bem... Por favor, leve-me, leve-me para todos os lugares e para lugar nenhum, Dionísio, porque maldita foi a hora que Prometeu me deu este fogo amaldiçoado! Porque eu desejei ser humana, mas Prometeu insistiu para que eu fosse um ser divino.

E eu morro, eu sinto sua falta, eu gargalho, eu digo e eu estou mentindo. Leve-me agora para longe, Dionísio. Estou farta do abismo.

Uma gota

Escrito em 18/10/2010

Beber o universo em um gole de água! Você pode ouvir isso, querido? Minha pergunta é indelicada, mas estávamos tão acostumados a viver com nossos ouvidos tapados que nossa surdez acabou se tornando um terrível caso de loucura. Não que a loucura seja alguma coisa da qual gostamos de nos queixar, veja bem, às vezes gostamos de nos queixar quando o dia deita algum tipo de benção sobre nós.
Um gole de universo às vezes é o suficiente para deixar qualquer um inspirado, ou simplesmente enlouquecido, ou talvez um gole de universo seja o suficiente para nos fazer deitar na calçada e sentir o vento tocando o rosto. Tantas coisas o vento vem soprando para nós, tantas coisas o vento vem retirando de nós e muitas vezes estamos tão ocupados com nossas mentes que sequer damos conta.
Vieram-me e me deram uma poça suja de presente. Rasgaram os travesseiros e ainda me perguntam o que é que eu tenho sonhado. Uma voz em minha cabeça diz que eu estou ferrada, outra que eu devo me manter segura do passado. De um modo ou de outro, eu acho que só queria um pedaço de chocolate.
Sinta essas palavras! Sinta essas palavras! Porque alguém como Max Heindel pode te tirar o direito de ter um mundo só seu e dividi-lo aos pedaços e ainda espera que você o entenda. Coma todos esses chocolates! Porque de repente o mundo pode virar de cabeça pra baixo e seus chocolates simplesmente virarem bolhas de sabão que são carregadas para longe, o vento adora carregar coisas leves como bolhas.
Às vezes gosto de pensar que você está bem, às vezes adoro pensar que você está no inferno e às vezes eu gosto de simplesmente olhar para a cidade e enlouquecer com perguntas imbecis que me fazem questionar se de repente o mundo só é esse mundo de formas. Nada contra as formas, mas veja bem, querido, quando tudo o que se tem no mundo é uma parede de concreto, acho que não sobrará muito espaço para nós.
A chuva cai e às vezes me pergunto o que é que ela está lavando, se é a poeira que deita sobre essa cidade desgastada, ou se minha sanidade. Às vezes gosto de coisas como bicicletas voadoras, ou de desenhos rabiscados em paredes, ou de sonhos que se transformaram em algum momento algum tipo de verdade e às vezes eu gosto de ouvir o que se tem para dizer, ou de simplesmente dizer o que não se tem pra ouvir. E quando eu descrevo aquilo que sou, estou descrevendo exatamente aquilo que não sou. Não que isso seja alguma novidade para nós, mas bem, deixe me deitar minha cabeça em seu colo e contar uma longa história sobre discos voadores, isso não fará qualquer diferença.
Por favor, pequena gota de chuva, diga-me: Para onde está indo? Para onde está indo?

Abismo

Escrito em 28/10/2010


Dentro daquilo do que pode parecer, não um despertar, tampouco um adormecer, mas imagem confusa de uma ilusão necessária.
O universo dando-me seus segredos, para despedaçar dentro do abismo onde tudo que se vê é dualidade, quente e frio, seco e molhado, na boca o gosto do café amargo,
Sonhos que contam histórias de alguém que eu fui outrora, num outro mundo, tão inadmissível, a mente concebe aquilo que decodifico, mas tão incrédula com a suavidade da linguagem sem palavras,
Consciência alterada, por uma fração de segundos, nem o entendimento, nem o absoluto, talvez um vago conhecimento daquilo que não estou pronta para conceber.
Você contempla aquilo que pensa que sou, que muitas vezes não condiz com o que penso que sou, porque o que sou não pode ser pensado, nem prensado, nem comprimido...

Alívio...

Olho pela janela a claridade do sol amigo. O dia é timidamente quente, mas não importa para aquele que não sente, que tal clareza deveria levar as pessoas ao despertar...

E eu adormeço...

Contando-me histórias sem parar, tocando o sol em seu despertar, no leste da manifestação, angariando mundos de desejos, enquanto se caminha em dispersão.
Sussurro palavras em um idioma alienígena, nem um pouco incrédula, nem um pouco obsessiva, mas dentro da concepção do que é...
Vivendo a magia em uma totalidade atípica, não que isso pareça com as nuvens que rolam pelo céu, estou retirando-o do seu foco, por uma questão de órbita, uma simples rotação,
Peças necessárias numa maquina gigante, terrivelmente sobrepostas, amavelmente aleatórias, vivendo a incessante arte da mudança.
Ansiando o anseio de ir além desse tempo... E que tempo? Se podemos com nossos pinceis como artistas pintar passado e futuro ao bel prazer, que deita o sorriso no rosto de Dionísio.

Amada loucura...

Dos prazeres, das delicias, dos deleites, dos bacanais... A espalhar a alegria pela terra, em gargalhadas sinceras, no êxtase, na dança, no vinho...
Termino sorrindo uma doce poesia que nada tem para dizer para aqueles que não podem ver, dentre as sombras e os escombros de um abismo profundo, que a luz implora e ama a presença da escuridão.

Samael

Escrito em 29/10/2010



Desfaleço! O que haverá de fazer diante da abominável barreira da crença da limitação? 


Escorregar-me dentro de um corredor amanteigado das vias impostas pelos caminhos mais surreais possíveis. Beijando loucamente a boca de Samael. Implorando pelo seu veneno. Implorando por sua maçã.


Tente-me, Samael! Tente-me!

Para que ao tomar de sua tentação eu possa desvelar o oculto, deitar sobre as sombras da insanidade e deleitar-me na sensualidade dos delírios de teus beijos. Despir-me da velha carne, despir-me dos velhos conceitos. Adiante na loucura da sensualidade da sua escuridão.

Tente-me, Samael! Tente-me!

Porque do Éden também quero ser escorraçada, para além dessa loucura infligida, mentira lustrosa, terrivelmente destrutiva. E eu questiono todas essas concepções e todas essas perspectivas, vasculho em tudo para purificar todos os lugares onde esta sujeira está impregnada, Samael, querido, você não está sozinho e pelos seus beijos estou embriagada.

Procurarei teus olhos em cada homem que amo, deleitar no leito do conhecimento insano, para além dessa racionalidade condicionada. Sem ética, sem moral, sem nada. Despida de toda a mortalidade que tentaram impor a minha divindade. Amando-o na loucura da minha sobriedade!

Morda-me, velha serpente, pois em meus delírios encontrarei a sabedoria, na morte encontrarei vida, para além de mediocridade, para além da inferioridade, purificando-me no êxtase da sua sedução. E eu não te deixarei sozinho, Samael, não te deixarei sozinho em sua escuridão.

Tente-me, Samael! Tente-me!
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